O papel da fotografia em Perfect Days e a impermanência dos dias monótonos.
O simples ato de fotografar árvores e observar a beleza transitória da natureza faz com que o filme Perfect Days explique visualmente dois conceitos importantes para a cultura japonesa.
O filme mostra o dia a dia Hirayama, um homem que trabalha na limpeza de banheiros públicos em Tóquio, e foca nesses “espaços em branco” perdidos na nossa rotina — que para muitos são entendidos como uma vida monótona.
É aí que entra o primeiro conceito, chamado“komorebi”. Komorebi é o nome dado ao efeito visual da luz do sol ao ser filtrada pelas folhas das árvores, que balançam com o vento e criam sombras dançantes nas superfícies.
Durante o filme, o personagem para em vários momentos diferentes ao longo do dia, para observar essas luzes. É muito comum cenas dele limpando um banheiro, por exemplo, e quando alguém chega para utilizar, ele aguarda do lado de fora enquanto olha para as árvores.
São esses momentos de “espaços em branco” no nosso dia a dia que Hirayama utiliza para respirar e observar a natureza.
Diariamente, também se senta em uma praça, nos intervalos do trabalho, e utiliza uma câmera analógica para fotografar as árvores e a luz do sol sendo filtrada pelas folhas. Hirayama sempre busca revelar os filmes da câmera e catalogar as fotos em um armário da sua casa. O papel da fotografia nesse filme é o de documentar a natureza impermanente, já que, mesmo as fotos sendo em preto e branco e feitas da mesma árvore, em cada registro ela está diferente. As folhas são novas, e a posição do sol muda com o passar do tempo.
O outro conceito japonês que tem conexão com a história do filme é o “mono no aware”, que é ver beleza na natureza transitória das coisas. É entender que tudo na vida é passageiro e que há algo de muito belo e sensível nisso.
Em determinado momento do filme, ele e a sobrinha repetem a frase “Da próxima vez é da próxima vez. Agora é agora”. Essa cena acontece em cima de uma ponte, e seguido de um pedido dela de ir até onde o rio encontra o oceano. O filme constrói essa conexão entre os momentos passageiros da vida e o movimento das árvores, da água corrente e das transformações da natureza.
Outra cena muito presente e que faz conexão com o conceito de mono no aware, é quando uma personagem — provavelmente vizinha dele — varre as folhas das árvores na rua pela manhã (aparentemente, o barulho dela varrendo funciona como um despertador). E mais uma vez nos deparamos com a natureza transitória: aquelas folhas que ora dançavam nas árvores quando o vento soprava, caíam e eram varridas na manhã seguinte. Folhas nascem, folhas dançam, e folhas caem. Nada se mantém.
O diretor do filme também usa muito de sobreposição ao longo da história, principalmente em momentos transitórios e relacionados aos sonhos do personagem. São imagens que tem uma estética impressionista, em preto e branco, com imagens que foram vistas ao longo do dia do personagem, se sobrepondo na tela.
Ainda sobre sobreposição, no final do filme um outro personagem diz “Sombras… Será que ficam mais escuras quando se sobrepõem? Tem tantas coisas que eu ainda não sei. É assim que a vida acaba.” E Hirayama o chama para uma espécie de experimento usando os corpos dos dois, para confirmar se de fato as sombras ficam mais escuras se sobrepondo.
O filme preenche os poucos diálogos e imagens estáticas com a mensagem principal de que nossa existência é preciosa, mesmo nos dias comuns. A cultura e a arte japonesa sempre tiveram conexão com a contemplação a natureza, e observar os detalhes preenchidos por ela no nosso dia a dia nos mostra que há impermanência mesmo nos dias monótonos.
Impermanência em seu sentido mais belo, quando o silêncio e os dias comuns se encontram e se revelam como necessários para percebermos que Hirayama não almeja pouco. Todas as manhãs, ele se levanta e cuida das plantas, ouve suas músicas preferidas no caminho para o trabalho, observa as cores do dia, que mudam a cada estação. Ao fim do dia, o privilégio de ser observador se revela: os sonhos se sobrepõem como imagens dançantes de tudo o que ele viveu. E, a longo prazo, as memórias de seus dias também estarão ali, documentadas em suas fotos.
A cena final é a resposta para a indagação da irmã de Hirayama, que questiona o estilo de vida dele e a escolha de sua profissão. Dentro do carro, seguindo sua rotina a caminho para o trabalho, a voz de Nina Simone ecoa
It’s a new dawn
It’s a new day
It’s a new life for me
And I’m feeling good.
A perfeição dos dias está na fluidez da monotonia,
e cabe a nós termos olhos sensíveis para os dias comuns.