A arte híbrida de Kunié Sugiura.

A obra como extensão de uma multiartista nipo-americana.

Nascida no Japão em 1942, Kunié Sugiura se mudou para os Estados Unidos para estudar arte em uma escola independente chamada The School of the Art Institute of Chicago (SAIC), onde teve seus primeiros contatos com a fotografia. Mesmo cursando outras disciplinas, pôde explorar a arte fotográfica de forma multidisciplinar, unindo pintura em acrílico, cromogenia e fotogramas.

Em um de seus primeiros trabalhos, realizado no último ano na escola de artes, Kunié utilizou uma técnica que se tornaria uma das marcas de sua obra: a distorção da realidade.

Cko — Impressões Cromogênicas | 1965–1967

https://www.kuniesugiura.com/cko

Kunié fotografava corpos nus com uma lente fish-eye, não com a intenção de seguir o caminho da fotografia erótica, mas de usar os corpos como elementos visuais. Nos primeiros trabalhos dessa série, a artista misturou fotomontagem com negativos de paisagens que já possuía, criando um foco quase exagerado em partes do corpo para provocar distorções.

Um ponto interessante é a escolha do nome da série. Cko, segundo Kunié, é uma palavra de origem chinesa, mas também usada no Japão para se referir à solidão. Em entrevista ao San Francisco Museum of Modern Art, ela conta que ser uma mulher japonesa em um país estrangeiro gerava muitos momentos de isolamento, e que essa série surgiu como uma forma de expressão existencial. Sozinha em laboratórios fotográficos —chamados de darkrooms — ela encontrava espaço para se expressar artisticamente.

Ainda aprofundando seus experimentos com a distorção por meio de lentes grande-angulares, Sugiura consolidou sua carreira nos Estados Unidos, sem nunca abandonar a influência estética e filosófica japonesa em seus trabalhos com flores e minerais.

Ao se aproximar dos elementos, criava novas dimensões através de seu ponto de vista. Como uma flor que, ao preencher o enquadramento, revelava detalhes e características antes invisíveis. Ou o tronco de uma árvore, que visto de perto se transformava em uma imagem abstrata.

Mesmo após sair de sua cidade natal, em Nagoya, Kunié manteve suas raízes. Ao se mudar para Chinatown — bairro com a maior população chinesa fora da Ásia — passou a ter acesso ao que ela chamava de “coisas estranhas”, alimentos comuns naquela cultura, como polvos e enguias. Por serem recursos baratos, esses elementos também passaram a ser utilizados como materiais em seus fotogramas.


Emulsões.

Ao se mudar, Kunié não conseguia realizar impressões coloridas em seu apartamento. Como alternativa, passou a fotografar em preto e branco e a trabalhar com tinta, o que ela chamava de emulsões fotográficas. Nesse processo, uma nova possibilidade surgiu. Sem misturar diretamente os materiais, começou a usar a tinta acrílica como uma extensão da imagem, fazendo com que o observador deixasse de perceber esses elementos de forma separada.

Seu trabalho só ganhou visibilidade quando ela já tinha 50 anos, e Kunie relata que enfrentou dificuldades para ter sua produção experimental aceita na década de 1960. O mundo da fotografia tradicional não era suficiente para ela.

No vídeo que funciona como uma extensão de sua entrevista para o SFMOMA, Kunié apresenta um diário, que ela chama de “prova da minha existência”. Todo o seu trabalho entre 1965 e 1991 está documentado ali.

Sua obra explora a dualidade de ser uma mulher asiática vivendo em solo americano, transitando do preto e branco ao colorido e unindo fotografia e pintura em quadros. Uma história enriquecida por um olhar subjetivo e sensível sobre o mundo em que ela vive, assinado por sua natureza plural.

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